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A musa Pagu, primeira presa política brasileira e nossa soja

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Ela escreveu literatura proletária, foi casada com Oswald de Andrade, militou no Partido Comunista, escreveu histórias policiais e entrevistou Freud

Carlos Russo Jr.

Por volta de 1930 a literatura, moderna brasileira entrou em crise. Era necessário o encontro entre a literatura e a realidade do país. As modernas técnicas estrangeiras assimiladas com o Modernismo deviam se modificar, adaptar-se.

Nessa busca, em março de 1924, Oswald de Andrade publica o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”. Formava-se o “grupo dos cinco”, com Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Menotti del Picchia. O primitivismo, a “simplicidade alcançada” e a crítica ao nacionalismo postiço eram as bases de seu programa.

Mário de Andrade logo se afasta do grupo e traçará caminho próprio. Del Picchia também buscará uma alternativa, mas à direita do grupo original.

Pagu, o bebê Rudá e Oswald de Andrade | Foto: Reprodução

O grupo Pau-Brasil evoluirá inclinando-se ideologicamente para a esquerda e em 1928 fundará o Movimento Antropofágico. Este propunha a “devoração” cultural das técnicas importadas para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação. A literatura moderna brasileira iria se fazer conhecida no mundo.

Outra corrente cultural surgia, o Movimento Verde-amarelo, liderada por del Picchia, Cândido Mota e Plínio Salgado. Nacionalista e conservador, o movimento dará origem ao Grupo da Anta, com a incorporação de Cassiano Ricardo, seguindo nas pegadas do futurismo fascista do italiano Marinetti, terminando por desaguar no integralismo brasileiro.

Antropofagia é a ida ao homem natural

Serão, pois, duas vertentes intelectuais que se tornarão absolutamente opostas na década seguinte.

Respondendo a uma provocação dos Antas, dizem os Antropofágicos: “Antropofagia é simplesmente a ida (e não o regresso) ao homem natural, anunciada por todas as correntes da cultura contemporânea e garantida pela emoção muscular de uma época maravilhosa, a nossa. O homem natural que nós queremos pode ser branco, andar de casaca e de avião. Mas pode também ser preto e índio. Por isso o chamamos de antropófago e não tolamente de ‘tupi’ ou ‘pareci’. Nem queremos, como os meninos do ‘verdeamarelo’, restaurar coisas que perderam o sentido… Os ‘verdeamarelos’ querem mesmo é o gibão e a escravatura moral, a colonização do europeu arrogante e idiota e no meio disso tudo, o guarani de Alencar dançando valsa”.

Os temas nacionalistas ganham espaço em busca de nossas raízes históricas: o negro, o índio, o caipira, os canaviais nordestinos e a cafeicultura do sudeste. O fascínio pelas lendas indígenas permeia criações de um claro nacionalismo como “Pau-Brasil”, de Oswald de Andrade; “Macunaíma”, de Mário de Andrade; “Cobra Norato”, de Raul Bopp e a música do compositor Heitor Villa-Lobos.

Regionalismo e a crítica social

Pagu: escritora brasileira | Foto: Reprodução

Ao mesmo tempo surge o regionalismo e a crítica social, e com eles a massa anônima dos operários, camponeses e empregados do comércio ocupará o primeiro plano.

Trata-se de redescobrir o Brasil e suas diferentes realidades. Disse o crítico literário Wilson Martins: “Assim como há uma República Velha, há um novo Modernismo a partir de 1930”.

“A Bagaceira”, de José Américo de Almeida (1928), é um sinalizador. A terra, o homem do campo, a decadência da sociedade patriarcal, os problemas sociais que se avolumam. Em seguida, Raquel de Queiroz e a seca do Nordeste cearense, com “O Quinze”.

O baiano Jorge Amado estreia em 1931 com “O País do Carnaval”, unindo romantismo ao realismo, sintoniza-nos com o Brasil dos trabalhadores do cacau, dos negros, dos meninos abandonados.

Será em 1932 que, da Paraíba, surgirá José Lins do Rego com “O Menino do Engenho”, sequenciado por “Banguê” (1936).

O gaúcho Erico Verissimo traça perfis humanos em grandes cidades, a solidariedade entre iguais e diferentes, com “Clarissa” (1933), “Um Lugar ao Sol” (1936) e “Saga” (1940).

Em 1933, um dos mais importantes escritores de toda essa riquíssima geração, Graciliano Ramos, estreia com “Caetés”, sequenciado por “São Bernardo” (1934), “Angústia” (1936) e “Vidas Secas” (1938).

Já a classe média urbana com todas as suas dificuldades é retratada por Dyonélio Machado, em 1935, no romance “Ratos”.

Poesia e literatura intimista

A valorização do cotidiano surge com Carlos Drummond de Andrade e “Alguma Poesia”. “Libertinagem”, de Manuel Bandeira, sonda a pureza da percepção infantil. Augusto Frederico Schimdt esboça uma série de caminhos espiritualistas em “Pássaro Cego” e Murilo Mendes, com “Poemas”, uma erupção no surreal.

Enquanto Mário de Andrade busca fundir na poesia uma sondagem de seu mundo interior, na busca das raízes culturais do Brasil, com “Remate de Males” (1930) e “Poesias” (1941).

Em 1935 surgem três importantes obras poéticas. Vinicius de Morais, com “Forma e Exegese”; Jorge de Lima, “Tempo e Eternidade”, e Cecília Meirelles, com a poesia simbolista. Ao mesmo tempo, do Rio Grande do Sul, o humor que se associa à morbidade e ao pessimismo: Mario Quintana.

Oswald de Andrade marca a busca pela concisão no poetar, com “Poesias Reunidas” (1945).

No caminhar literário, Vinicius de Morais e Carlos Drummond voltam-se mais e mais para a crítica social. “Sentimento do Mundo” (1940) e “Rosa do Povo” (1945).

Outros autores buscam o intimismo. Lúcio Cardoso, em “Maleita” (1934) e “Mãos Vazias” (1938), expõe a angústia existencial de seus personagens — e Clarice Lispector, o susto de existir.

“Passou a hora das coisas bonitas”

“Passou a hora das coisas bonitas”, sentenciou o crítico literário Tristão de Athayde. “Gororoba”, de Juvêncio de Campos (1930), constitui um marco. A literatura deixa o universo dos salões da elite urbana e trata de documentar um Brasil construído por explorados e oprimidos. As mazelas, doenças e o esgotamento que resultaram em mais de trinta mil operários mortos na construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré.

Três anos após, Patrícia Galvão, a Pagu, publica seu romance “Parque Industrial”. A obra é uma narrativa urbana sobre a vida das operárias do bairro do Brás, da cidade de São Paulo, “as filhas naturais da sociedade”. Pela senda do realismo socialista, Pagu relata, em meio à alienação, a luta dos operários conscientizados.

Em 1934, seu marido, Oswald de Andrade, adere à literatura proletária com “A Escada Vermelha”, sequenciada por “Revolução Melancólica” (1943) e por “Chão” (1945).

O drama dos trabalhadores do porto de Santos é trabalhado literariamente por Ranulfo Prata, em 1937, com “Navios Iluminados”.

Provavelmente um dos maiores expoentes da literatura proletária tenha sido Jorge Amado. De sua pena saíram “Cacau” (1933), “Jubiabá” (1936), “Capitães de Areia” (1937), a obra-prima “Terras do Sem Fim” e a trilogia “O Cavaleiro da Esperança”, ambos em 1942.

Pagu, a primeira presa política brasileira

Diferente das moças de sua época nos anos 1920, Pagu usava blusas transparentes, fumava na rua e dizia palavrões. Aos 15 anos, colabora no “Jornal do Brás”, assinando Patsy.

Jovem, bonita e burguesa, Patrícia Galvão resolveu lutar por aquilo em que acreditava. Apresentada a Oswald de Andrade e a Tarsila do Amaral, Pagu aos 18 anos se integra ao movimento antropofágico, de cunho modernista. Dois anos após, casa-se com Oswald e tem seu primeiro filho, Rudá de Andrade.

Junto com o marido torna-se militante do Partido Comunista do Brasil. Aos 20 anos, participa de um incêndio no bairro do Cambuci em protesto contra o governo provisório. A seguir, numa greve de estivadores em Santos, é presa pela primeira vez, tornando-se a primeira mulher presa no Brasil por motivos políticos.

Militante incansável tornaria a ser presa mais de uma dezena de vezes na vida.

Depois de publicar o “Parque Industrial”, parte para uma viagem pelo mundo no trabalho de repórter, deixando no Brasil o marido Oswald e o filho.

Em 1935, filia-se ao Partido Comunista da França, e lá é presa como comunista estrangeira com identidade falsa, e somente escapa à deportação para a Alemanha nazista graças ao embaixador brasileiro Souza Dantas.

Retornando ao Brasil, separa-se definitivamente de Oswald e, então, retoma a atividade jornalística.

Envolve-se com a Aliança Nacional Libertadora sendo novamente presa após a frustrada Insurreição de 35, sendo, então, barbaramente torturada pelas forças policiais d governo de Getúlio Vargas. Ficará na cadeia por cinco anos. Às vésperas de sua soltura, insubordina-se quando da visita ao presídio feita pelo interventor Ademar de Barros. Poucas pessoas teriam a coragem de chamá-lo face a face de “corrupto”. Por isto, permanecerá mais seis meses presa.

Por divergir do stalinismo, desligou-se do PCB em 1940, assim que saiu da prisão. Adere, então, ao trotskismo e se incorpora à redação do jornal “A Vanguarda Socialista”, iniciando em 1946 uma colaboração regular no suplemento literário do          “Diário de S. Paulo”.

Patrícia casou-se, em 1945, com Geraldo Ferraz, jornalista da “A Tribuna de Santos”, cidade na qual passa a viver. Nasce seu segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz.

Tenta, sem sucesso, uma vaga de deputada estadual nas eleições de 1950.

Em 1952, frequenta a Escola de Arte Dramática de São Paulo, levando seus espetáculos a Santos. Animadora cultural, dedica-se em especial ao teatro, particularmente aos grupos amadores.

Escreveu diversos contos policiais, sob o pseudônimo King Shelter, publicados originalmente na revista “Detective”, dirigida pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, e depois reunidos em “Safra Macabra” (Livraria José Olympio Editora, 1998).

Correspondente de vários jornais, Pagu visitou os Estados Unidos, o Japão e a China. Entrevistou Sigmund Freud e assistiu à coroação de Pu-Yi, o último imperador chinês.

Foi por intermédio dele que Pagu conseguiu sementes de soja, enviadas ao Brasil e introduzidas pela primeira vez na economia agrícola brasileira.

Pagu morreu em dezembro de 1962, aos 52 anos.

Na véspera de sua morte, um último texto seu é publicado, o poema “Nothing”. E como o Nada de Pagu nos soa atual.

Carlos Russo Jr. é crítico literário.

Nothing

Pagu/Patricia Rehder Galvão

Nada nada nada

Nada mais do que nada

Porque vocês querem que exista apenas o nada

Pois existe o só nada

Um para-brisa partido uma perna quebrada

O nada

Fisionomias massacradas

Tipoias em meus amigos

Portas arrombadas

Abertas para o nada

Um choro de criança

Uma lágrima de mulher à-toa

Que quer dizer nada

Um quarto meio escuro

Com um abajur quebrado

Meninas que dançavam

Que conversavam

Nada

Um copo de conhaque

Um teatro

Um precipício

Talvez o precipício queira dizer nada

Uma carteirinha de travel’s check

Uma partida for two nada

Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas

Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava

Um cão rosnava na minha estrada

Um papagaio falava coisas tão engraçadas

Pastorinhas entraram em meu caminho

Num samba morenamente cadenciado

Abri o meu abraço aos amigos de sempre

Poetas compareceram

Alguns escritores

Gente de teatro

Birutas no aeroporto

E nada.

“Nada mais do que nada

Porque vocês querem que exista apenas o nada

Pois existe o só nada”!

(Publicado em “A Tribuna”, Santos/SP, em 23/09/1962).



Fonte