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Com políticos velhos, a política é velha, escreve Thales Guaracy

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Hoje dá para dizer que ninguém é velho, dada a longevidade humana, mas a política em todo o mundo tem sofrido de um envelhecimento visível, tanto de seus personagens quanto, significativamente, dos seus sistemas.

Não faltam exemplos. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defensor do protecionismo e da repressão contra as manifestações raciais em plena globalização digital, tem 74 anos. Candidato à reeleição, terminaria um novo mandato aos 78.

Seu concorrente, o democrata Joe Biden, tem 77 anos. Quando ele nasceu, não tinha acabado ainda a Segunda Guerra Mundial –e está na política desde que usava fraldas. Se vencer, concorrerá à reeleição com 81.

A velhice não é só a idade dos políticos, como suas referências. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro, que tem 65 anos, é um simpatizante declarado da ditadura militar, que acabou há 36 anos.

Luiz Inácio lula da Silva, principal líder da oposição brasileira, tem 74 anos. Formou-se sindicalista, que hoje sofre um desmanche, dadas as mudanças nas relações trabalhistas do capitalismo digital.

É difícil olhar para a frente, com uma cabeça diferente, quando não apenas se saiu do passado, como se vive de passado. O capitalismo digital pede dinâmica, novas soluções para novos problemas, mas o que temos na política é gente que procura soluções olhando para trás.

As democracias ao redor do mundo têm dificuldade de promover uma necessária renovação, tanto dos políticos quanto da própria política. Os sistemas representativos hoje em funcionamento foram desenhados para o capitalismo industrial do século 18, quando começava a surgir na Inglaterra o binômio empresário-trabalhador.

A democracia representativa, como a conhecemos, surgiu para acabar com o poder das antigas aristocracias rurais, fincadas nas monarquias e na lógica do direito hereditário.

Deu espaço para a participação popular, mas foi feita para conservar sempre os mesmos no poder –a então ascendente burguesia industrial, em franca decadência no atual capitalismo digital.

Hoje, até o binômio patrão-empregado corre o risco de desaparecer. As relações de trabalho são mais colaborativas e horizontais. Um jovem saindo da faculdade pode valer mais, para o mercado, que um industrial de barbas brancas. Na era tecnológica, o saber e a invenção são o grande capital.

A propriedade da terra e outros meios de produção deixou de ter relevância num mundo globalizado e sem fronteiras, não só físicas como no trânsito dos negócios pelo meio digital. Como as fronteiras definem os estados nacionais, o próprio Estado perdeu controles, recursos e importância.

Já estamos em outro mundo, mas as lideranças ainda são as mesmas, e não acompanharam as mudanças, tentando defender o passado, em vez de projetar o futuro. Ele virá de qualquer maneira, queiram ou não.

Não é diferente no Brasil. Por conta de uma legislação amarrada para perpetuar a espécie política, feita por ela mesma, aqui é quase impossível criar novos partidos. O dinheiro do fundo partidário e as regras eleitorais favorecem quem já tem lugar no Congresso.

Os partidos se transformaram em quadrilhas que decidem quem pode e quem não pode concorrer ao poder e se apropriam da máquina do Estado para favorecer grupos de interesse. Tem a bancada evangélica, a bancada da bala, a bancada ruralista, a bancada do funcionalismo. Procura-se a bancada do povo.

Quando aparece alguém de fora do sistema, mesmo a com ajuda disruptiva do meio digital, acaba sendo obrigado a ceder, se quiser ficar no poder ou, pior, escapar da cadeia.

O meio digital criou muita liberdade de expressão e participação, mas o dinheiro público também é usado ideologicamente para ocupar o espaço virtual. No fim, este também serve mais a promover o velho que criar o novo.

Jovens políticos são obrigados a entrar em velhas legendas e não conseguem mudar o perfil da política nacional. Com raras exceções, desaparecem,  engolfados pelo sistema.

O Poder Executivo é obrigado também a reproduzir o passado. Bolsonaro, que entrou para quebrar o círculo vicioso do estatismo e da corrupção, em dois anos de governo já se encontra amarrado.

Ao estudar agora um pacote de R$ 6 bilhões de dinheiro público para incentivar a economia, que será utilizado por deputados e senadores em seus currais eleitorais, o presidente joga fora o seu projeto liberal. O ministro Paulo Guedes, símbolo dessa mudança, já trafega em Brasília como um zumbi.

Enxugar o Estado, cortar os mecanismos do fisiologismo e criar uma iniciativa privada no Brasil que mereça esse nome? Fica para a próxima. O presidente faz parte do sistema, que sabe como chantageá-lo.

No Brasil, uma fresta de modernidade, quando surge, logo é massacrada. O governo já ficou com cara de velho. E, enquanto a massa de trabalhadores brasileiros vai se transformando num enorme lúmpen, aqui e alhures, não se vê ainda o novo no cenário.

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