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Como a objetividade do jornalismo pode obscurecer a verdade sobre a política

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*Por Issac J. Bailey

É uma pena que as manchetes sobre as negociações paradas entre o Congresso e a Casa Branca sobre o novo pacote de estímulo não tenham abordado isso claramente antes que a questão fosse engolida pela cobertura das principais convenções políticas: “Os democratas querem enviar mais dinheiro às famílias norte-americanas; Os republicanos não têm certeza se isso é sábio ou necessário”.

É uma pena porque os jornalistas sabem que essa é a verdade, mas nos convencemos a afirmar que isso pode nos fazer parecer tendenciosos. Pelo menos essa é a melhor explicação que posso dar sobre o porquê não contamos apenas a maldita verdade.

Isso ilustra por que agarrar-se à ideia de “objetividade” muitas vezes torna mais difícil para o nosso público entender o que está acontecendo. Fica mais difícil para os norte-americanos decidirem quem deve ser considerado mais responsável –quem punir ou recompensar– pelo último impasse no Congresso e que papel eles podem desempenhar para tentar mudar as coisas, se decidirem tentar. Com o Congresso suspenso e a eleição em alta velocidade, as negociações do estímulo dificilmente serão retomadas depois do feriado do Dia do Trabalho, em 7 de setembro. Já é difícil para o público se fazer ouvir. Os jornalistas não deveriam tornar isso ainda mais difícil.

A cobertura de notícias das negociações do estímulo deixou claro que o impasse significa que milhões de norte-americanos que podem precisar de ajuda financeira não a estão recebendo e podem nunca receber. Isso é notável. As histórias de indivíduos afetados pelo que acontece em Washington são inestimáveis.

Mas a cobertura não fez 1 trabalho igualmente bom em explicar por que milhões de cidadãos que podem precisar de assistência financeira podem não recebê-la, deixando a impressão de que este é apenas o exemplo mais recente de políticos desatentos e não dispostos a fazer nada, mesmo quando vidas e meios de subsistência estão em jogo durante uma pandemia que ocorre uma vez a cada século. É o tipo de impressão que pode fazer os norte-americanos se sentirem cínicos ou desamparados em relação ao processo político, uma possibilidade perturbadora durante 1 ciclo eleitoral particularmente vital.

Um exemplo de tal cobertura foi ilustrado em 1 tweet que dizia A Casa Branca e os democratas jogam a culpa 1 no outro pela expiração de benefícios de desemprego para uma matéria do Washington Post que começou assim: “Quase 30 milhões de trabalhadores perderam os US$ 600 em benefícios semanais de desemprego que mantiveram grande parte da economia à tona nos últimos 4 meses durante a pandemia do coronavírus, enquanto os principais legisladores do Congresso e da Casa Branca permanecem em 1 impasse sobre como e se estender os benefícios”.

“A maior parte dos últimos cheques saiu na última semana, mas o programa terminou oficialmente em 31 de julho, 1 dia em que democratas e republicanos trocaram farpas sobre quem era o culpado pelas negociações fracassadas.”

Dado o que sabemos sobre o que democratas e republicanos não apenas disseram sobre o estímulo, mas também fizeram, isso não teria violado a vaca sagrada que é a objetividade –se objetividade é realmente sobre dizer verdades– se as notícias de verdade tivessem sido escritas dessa forma em vez de:

As negociações sobre a outra rodada de estímulo na pandemia estão paralisadas por causa das diferentes filosofias de governo de nossos 2 principais partidos políticos, com os democratas unidos para enviar mais dinheiro aos norte-americanos, enquanto os republicanos moderados e conservadores e o presidente Donald Trump estão em desacordo sobre o que fazer.

Se os democratas estivessem no controle, o auxílio federal de US$ 600 nos benefícios para o desemprego teria sido estendido em maio, quando eles aprovaram 1 pacote de mais de US$ 3 trilhões na Câmara; os Estados teriam recebido fundos adicionais para reforçar seus orçamentos e financiar a educação e os serviços de emergência; e 1 congelamento de despesas ainda estaria em vigor. Democratas liberais e moderados no Senado também estão unidos em tais medidas. Depois que as negociações começaram há algumas semanas, funcionários da Casa Branca e republicanos sugeriram fornecer menos dinheiro ao norte-americano de classe média do que os democratas propuseram.

Alguns republicanos barraram os esforços iniciais dos gastos, mas cederam, abrindo caminho para as primeiras rodadas de estímulo que aumentaram a renda pessoal média, mesmo durante 1 período de desemprego historicamente alto. Mas, desde então, eles argumentaram que o estímulo adicional pode convencer os funcionários de baixa renda a evitar voltar ao trabalho, apesar dos estudos econômicos sugerirem o contrário.

Um desses republicanos, o senador Rand Paul, de Kentucky, explicou assim na Fox News: “Se você der dinheiro às pessoas e tornar menos doloroso estar em uma recessão, poderemos permanecer nela por mais tempo”.

Paul e outros republicanos também acreditam que mais estímulos afetariam negativamente o deficit, que aumentou sob todos os presidentes republicanos desde Ronald Reagan e diminuiu durante todos os governos democratas durante esse período.

Devemos abandonar a “objetividade” quando nos leva a obscurecer a verdade em vez de torná-la clara.

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*Ann Cooper é jornalista, autor e criador de seminários sobre questões raciais. Ele contribuiu para o Politico, CNN, Time e Washington Post. É ex-colunista e redator sênior do Sun News em Myrtle Beach, Carolina do Sul, e em 2011 recebeu a Medalha Casey de Jornalismo Meritório por histórias sobre 1 caso de proteção infantil.

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O texto foi traduzido por Ighor Nóbrega (link). Leia o texto original em inglês (link).

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