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Documentário ‘Boys State’ é uma espécie de retrato da política real em miniatura – 17/08/2020 – João Pereira Coutinho

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É um velho ditado: se você gosta de salsichas, não queira saber como elas se fazem.

O que vale para salsichas, vale para a política. Maquiavel, esse gênio florentino, teve a temeridade de escrever um livro a respeito. Ainda hoje não lhe perdoam o crime de ter mostrado como as salsichas são feitas.

Mas existem sempre os masoquistas, que não resistem a uma boa espreitada. Para eles, há um documentário na Apple TV que, salvo melhor opinião, é a melhor colheita deste 2020: “Boys State”, de Amanda McBaine e Jesse Moss.

Apresentações: a Legião Americana organiza no estado do Texas, desde 1935, um encontro anual para adolescentes interessados em política. O objetivo da organização de veteranos é que eles aprendam algo sobre democracia e discurso cívico.

Os adolescentes se candidatam. Muitos são os chamados, poucos os escolhidos. Sobram 1.200.

Divididos em dois “partidos” —o Nacionalista e o Federalista— os rapazes (existe uma escola só para moças) têm de se candidatar aos cargos mais importantes: chefe de partido, procurador-geral, magistrado da Suprema Corte, vice-governador e, claro, governador, o prêmio principal.

Para isso, têm de fazer campanha, convencer quem não está convencido, vencer as primárias.

Depois, pela lógica da coisa, não podem apenas contar com os votos do próprio partido para se elegerem; é preciso convencer alguns militantes do partido contrário (os 1.200 participantes foram divididos em 600 mais 600, lembra?).

E, no final, ao vencedor, as batatas. Corrijo. Ao vencedor, as baratas: é óbvio que nenhum cargo político está em disputa. Só os egos.

Existem duas formas de olhar para o documentário.

A primeira é lembrar a frase que escrevi mais acima —“adolescentes interessados em política”— e repetir o que Anthony Lane escreveu ironicamente na New Yorker a respeito do filme: um adolescente obcecado por política deveria ser impedido de participar nela quando atingisse a maioridade.

Uma parte de mim concorda. Os rapazes têm 16 ou 17 anos. Que fazem eles ali, quando estão nos píncaros do seu potencial lascivo?

Eu respondo: imitam o que vêem nos adultos. Nesse sentido, “Boys State” é uma espécie de retrato da “política real” em miniatura.

Os discursos são de uma pobreza que arrepia. Confirma-se: a emoção tem sempre mais sucesso que a razão, em qualquer idade.

As campanhas eleitorais rapidamente degeneram para os ataques “ad hominem”. O tribalismo impera, prova provada de que é possível regredir mentalmente quando nos dizem que a nossa cor é o vermelho (e o inimigo é o azul, ou vice-versa).

E os princípios elevados, de que eles se orgulham quando entram no jogo, desaparecem por força das conveniências. Um deles, de seu nome Robert, tem uma posição pró-escolha em matéria de aborto.

Perante um auditório mais conservador, passa a defender uma posição pró-vida com o mesmo fervor. “Agora entendo melhor porque os políticos mentem para serem eleitos”, diz ele em entrevista posterior, como se tivesse tido a iluminação de uma vida.

Acontece que o documentário não pode ser reduzido a uma escola de cínicos ou mentecaptos. E quem esperava “O Senhor das Moscas” errou.

Ali, no contato com centenas de outros jovens, o fanatismo desce um degrau e eles também estão dispostos ao diálogo e ao consenso. Exatamente como os “Pais Fundadores” desejavam: a única forma de moderar o poder das facções é pelo governo representativo, dizia James Madison.

O representante, acrescentava Madison, só pode ser eleito se ele for capaz de se moderar para servir às várias sensibilidades políticas.

Além disso, a democracia pode ser imperfeita e a visão que temos do seu funcionamento remete-nos para a famosa fábrica de salsichas. Mas qual é a alternativa?

Cidadãos apáticos que desertam da democracia?

Pior ainda: regimes autoritários em que a política é reservada a uma oligarquia corrupta?

Prefiro a fábrica de salsichas. E prefiro o final tragicômico de “Boys State”, quando os perdedores choram

amargamente.

Enoch Powell, um importante político inglês (que caiu em desgraça por causa de um único discurso contra a imigração), costumava dizer que todas as carreiras políticas terminam em fracasso.

Essa verdade, que tende a escapar a políticos profissionais, é talvez a grande lição que todos levam para casa.

Num ponto, porém, concordo sem reservas com Anthony Lane: seria bom revisitar os rapazes daqui a algumas décadas, só para ver aonde eles chegaram. Quem sabe?

No passado, um dos mais famosos participantes desta experiência foi o jovem Bill Clinton. Que, pensando bem, talvez se tivesse saído melhor como presidente se, aos 17 anos, tivesse usado a energia da idade em outros carnavais.

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