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Esquizofrenia política | O TEMPO

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Olhando, ambos, para o passado, rejeitam a verdade e a realidade, criando um falso mundo de fantasias, que não existe mais

Quando o ano de 1999 chegava ao fim, os preços do café estavam em queda mundo afora, e as expectativas para o seu mercado eram incertas. A Organização Internacional do Café (ICO) promoveu uma Conferência, em Londres, no mês de maio de 2000, para avaliar o que esperar do século XXI. 

Na parte da manhã ocorreram três apresentações. Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, mostrou sua visão sobre os desafios da globalização; eu, então vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), foquei os desafios para o crescimento da economia latino-americana, que estava superando o período de hiperinflação, contudo exibindo baixo crescimento e alta desigualdade; mas quem impactou a audiência foi um especialista em inovação e tecnologia, cujo nome não me recordo, mostrando o futuro da telefonia celular. 

O jovem apresentador, recém-entrando nos seus 30 anos, observava que, em breve, o celular deixaria de ser um aparelho para transmitir somente vozes, como qualquer telefone, transformando-se em uma plataforma de transmissão de dados, com mil utilidades. Viria a ser mais semelhante a um computador do que a um simples telefone. Inimaginável há 22 anos.

Apenas sete anos depois, para uma plateia atônita, Steve Jobs, orgulhoso, anunciava: “Hoje, a Apple vai reinventar o telefone”. Era o lançamento do iPhone, um aparelho móvel inteligente, fácil de ser usado, e o início de um ecossistema de comunicação que evolui rapidamente. Quem ainda se lembra do Blackberry? A ciência abria as portas para o século do conhecimento.

Por que registro isso, agora? Ah! Porque a propaganda política usará prioritariamente essas plataformas de comunicação para mobilizar e influenciar os eleitores. A estratégia nesse campo objetiva manter as pessoas ligadas nos posts e tê-las como fiéis disseminadoras. Para isso, ódio, mentira e fake news serão essenciais na batalha eleitoral. Em vez de discutir programas e propostas, valerá a desqualificação do oponente.

Não é à toa que os dois candidatos, que lideram as pesquisas de opinião pública e, hoje, são considerados imbatíveis, se nutrem dos mesmos alimentos: ódio e mentira. Um nega a ciência, nos seus fundamentos mais sólidos, como a existência do sistema solar, a pesquisa médica e o uso da vacina, e fomenta o ilusório perigo do comunismo e do globalismo. Outro defende ainda os Estados comunistas, autoritários e decadentes, como os de Cuba e Venezuela, e promete revogar os avanços da legislação trabalhista para adaptá-la às rápidas mudanças tecnológicas nos processos de produção e de trabalho.

Olhando, ambos, para o passado, rejeitam a verdade e a realidade, criando um falso mundo de fantasias, que não existe mais.

Se nada acontecer diferente, o resultado eleitoral confirmará o estado de esquizofrenia a que chegou a política no Brasil.



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