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Fala sexista de cartola do Japão vai na contramão da política olímpica – 08/02/2021 – Edgard Alves

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​Yoshiro Mori pediu desculpas públicas pelos comentários sexistas que fez. Não poderia ser diferente. As absurdas declarações ecoaram negativamente em inúmeros países, dando um tom contrário à política da igualdade de gênero defendida pelo COI (Comitê Olímpico Internacional).

Cartola do próprio COI e ex-primeiro ministro do Japão (2000-2001), Yoshiro Mori é também o presidente do comitê organizador dos Jogos Olímpicos de Tóquio. As declarações do dirigente, personagem de relevo, sustentaram manchetes, e não dá para duvidar que poderão alimentar críticas e protestos nos cerca de cinco meses que faltam para a Olimpíada.

É provável que ele não tenha sido apeado do cargo que ocupa na organização dos Jogos, já que declarou que não iria renunciar, em respeito ao seu passado de político e de serviços prestados ao Japão. A idade dele, 83 anos, também deve ter ajudado na blindagem.

Outro fator de peso foi a interrogação que envolve a realização da Olimpíada —adiada do ano passado para julho próximo por causa da pandemia do novo coronavírus—, ainda aguardando confirmação diante da crise na saúde mundial.

Antes de pedir desculpas a todos que se sentiram ofendidos, ele disse que gostaria de retirar tudo que havia dito, admitindo que as declarações foram contra o espírito olímpico, portanto inapropriadas.

A fala sexista de Mori aconteceu na última quarta (3), em reunião aberta à imprensa do Comitê Olímpico Japonês, que anunciou no ano passado a intenção de ter um conselho de administração integrado por 40% de mulheres, contra 20% atualmente.

Em síntese, ele teria dito que mulheres falam demais e por isso, em setores executivos de empresas, irritam por alongar demais as reuniões. “Se uma levanta a mão [para falar], as outras acham que também devem se expressar.’ E agradeceu as mulheres do comitê de organização de Tóquio-2020 que “sabem ficar em seu lugar”.

Na repercussão do caso, o atual primeiro-ministro japonês, Yoshihide Suga, foi vaiado pela oposição no Parlamento ao declarar que não estava a par dos detalhes do caso para comentar. E a anfitriã ministra dos Jogos, Seiko Hashimoto, declarou que gostaria de ter uma “conversa honesta” com Mori, antes de recordar que a igualdade entre homens e mulheres é um princípio no coração do olimpismo.

Esportistas locais e de outros países tuitaram protestando contra a fala de Mori. Renho Murata, integrante da oposição no Parlamento japonês, chamou de “vergonhosas” as declarações do cartola. Embaixadas de países europeus no Japão também se alinharam nas críticas, que teve até um abaixo-assinado encaminhado ao governo do país, segundo relatos da mídia internacional.

A luta das mulheres por espaço nos esportes não é recente, vem de longe. O idealizador dos Jogos Olímpicos de verão, o barão francês Pierre de Coubertin, não concordava com a prática esportiva por mulheres, para ele destinadas à maternidade.

Até recentemente, barreiras sociais dificultavam a evolução das disputas femininas. A principal delas, como visto via Coubertin, era uma visão machista da época, hoje superada em muitos aspectos pelos movimentos de igualdade de gênero. Na Olimpíada em si, as regras acompanham as mudanças, inclusive com a inclusão de disputas de equipes mistas.

Os Jogos Olímpicos seguiram esse movimento e, ao menos numericamente, dão uma ideia dessa evolução no quadro da participação de atletas. Na primeira Olimpíada da era moderna, na Grécia, em 1896, o evento foi um autêntico “clube do bolinha”, quando apenas 241 homens competiram.

As mulheres entraram nas disputas a seguir. Vinte e duas delas figuraram entre os 997 inscritos na competição quatro anos depois. Aos poucos, bem lentamente, elas acabaram ganhando o justo espaço, sacramentado em Londres-2012 com um inédito registro: o boxe, única modalidade que ainda resistia sem disputas no feminino, abriu as portas e realizou torneios nos dois gêneros.

Na Rio-2016, das 11.238 inscrições, 5.180 foram delas. Estimativas do COI, antes da pandemia, apontavam para a manutenção de um leve crescimento das mulheres em Tóquio, subindo para cerca de 48% do total de competidores. Uma vitória global, das mulheres e dos homens, para um mundo melhor, mais saudável e mais justo.

Em tempo

Nesta segunda (8), no programa de rádio da Westwood One Sports, o presidente dos EUA, Joe Biden, afirmou que a esperada definição sobre a Olimpíada de Tóquio tem que se basear na ciência. Mas ele torce pelos Jogos, ratificando a expectativa dos atletas.


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