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Geração do bicentenário: jovens peruanos impulsionaram protestos que obrigaram classe política a recuar

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Eles não têm mais do que 20 e poucos anos e a maioria não viveu sob a ditadura de Alberto Fujimori (1990-2000), mas sabem usar as redes sociais e muitos foram os primeiros de suas famílias a ingressar no ensino superior. No domingo passado, a chamada “geração do bicentenário” — uma referência ao bicentenário da Independência do Peru, comemorado no próximo ano — fez história nas ruas de Lima e outras cidades do país ao derrubar um presidente interino apontado como “golpista” e “usurpador” pela população, após um processo relâmpago de impeachment bastante questionado.

— É uma geração que nasceu depois de 1990 e, por isso, todas as suas lembranças e experiências de vida se deram num contexto democrático — explica Adriana Urrutia, presidente da Associação Civil Transparência e diretora da Escola de Ciência Política Antonio Ruiz de Montoya, de Lima. — Ela foi às ruas não por uma questão partidária ou ideológica, mas para defender as garantias mínimas da democracia quando elas começaram a se perder.

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Encabeçados por jovens universitários e influenciadores digitais — a dita geração do bicentenário — os protestos maciços irromperam em Lima na terça-feira, 10 de novembro, um dia após a destituição do presidente Martín Vizcarra pelo Congresso, por denúncias de corrupção que não chegaram a ser investigadas pelos parlamentares.

O ápice das manifestações ocorreu no sábado, 14, quando Manuel Merino, o ex-presidente do Congresso que havia sido empossado na Presidência, tinha apenas quatro dias de governo interino. O próprio Merino, assim como outros parlamentares que votaram pelo impeachment, enfrenta investigações de corrupção.

— O Peru é historicamente marcado, em termos políticos, pelo predomínio de oligarquias políticas, de traços fisiológicos e clientelistas, e não raro envolvidas em corrupção — afirma Wagner Iglecias, professor do Programa de Pós-graduação em Integração da América Latina da USP. — O que a juventude nas ruas pede é a superação desse modelo político e do modelo econômico de características neoliberais baseado na exportação de produtos primários, que tem feito a economia peruana crescer, mas falha na distribuição da riqueza produzida.

Migração e novas vozes

Há fatores mais recentes que concorreram para que esse momento ocorresse, afirmam Iglecias e Urrutia: o uso das redes sociais e a democratização do debate público, a partir da crescente participação de grupos outrora silenciados, como mulheres, LGBT+ e setores indígenas, além da intensificação do processo de migração interna do campo para a cidade.

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Nas ruas, os milhares de manifestantes que pediam a renúncia de Merino foram reprimidos com violência pela polícia. No sábado, dois jovens morreram: Inti Sotelo, 24 anos, estudante de Turismo; e Jack Pintado, 22, que havia deixado os estudos em Direito para trabalhar e ajudar a família. Outras 201 pessoas ficaram feridas, das quais 23 estão hospitalizadas. Há um desaparecido, segundo a Coordenadoria Nacional de Direitos Humanos.

Manuel Merino, do partido de centro-direita Ação Popular, renunciou na tarde de domingo, depois que a revolta provocada pela morte dos dois rapazes fez com que 13 de seus 18 ministros desistissem do mandato. Em seu lugar assumiu o centrista Francisco Sagasti, eleito pelo Congresso anteontem. Ele tornou-se o quarto presidente do Peru em dois anos, após a renúncia em 2018 de Pedro Pablo Kuczynski (PPK), que também sofria ameaça de impeachment, seguida pela posse de Vizcarra, seu vice, e depois de Merino.

— O Peru está vivendo sua primavera política — afirma Iglecias. — Mas é uma primavera progressista, que não se caracteriza, como outras, por ser antipolítica ou contra as instituições. O que os manifestantes pedem é um amplo processo de oxigenação das instituições, com maior participação da sociedade civil.

Urrutia lembra que pouco tempo atrás o panorama era outro. Em 2014, quando os jovens conseguiram reverter a aprovação de uma modificação na legislação trabalhista que tornava mais precários os postos de trabalho para os iniciantes, eles foram apelidados de “pulpines”, uma referência a um suco industrial popular entre as crianças peruanas.

— Falavam isso de maneira irônica, como se quisessem dizer “eles são tão crianças que ainda tomam suco Pulp” — disse a cientista política.

Se antes a “geração do bicentenário” era desacreditada, agora é popular. No TikTok, o influenciador Josi Martínez, de apenas 16 anos e mais de 17 milhões de seguidores — mais da metade da população peruana de 32 milhões — resumiu a importância de sua sua geração assim: “Tocaram em quem não deviam tocar, bateram em quem não deviam bater, mexeram com a geração errada, uma geração cansada de abusos”, disse. “Ninguém queria falar de política, mas, diante de tantos abusos, hoje todos nos juntamos à voz de protesto, muitos marchando nas ruas, outros nas redes sociais.”

Ao tomar posse ontem, na presença dos pais dos dois jovens mortos, Sagasti pediu perdão em nome do Estado. Ele fez um apelo à calma, mas disse que ela não deve ser confundida com “conformidade ou resignação”. Do lado de fora, mais jovens se manifestavam. Ouvida pela agência Reuters, Paloma Carpio disse que daria um voto de confiança a Sagasti para conduzir a transição até as eleições gerais de abril de 2021. Já José Murguia não parecia convencido:

— É o mesmo lixo. A máscara mudou, mas tudo o mais está igual.

 

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