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Justiça, mídia, polícia e política: série mostra rede de influência e contatos de Castor de Andrade | futebol

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Muito além da sua relação com o futebol, da época em que era o homem por trás do timaço do Bangu dos anos 80, Castor de Andrade foi um criminoso que expandiu os tentáculos do jogo do bicho sobre diversas áreas do Rio de Janeiro.

O carnaval foi uma delas – sob seu comando, a Mocidade ganhou cinco títulos entre 1979 e 1996. Com influência na polícia e no Judiciário, o bicheiro nunca parou por muito tempo na cadeia.

O contraventor é o tema da série documental “Doutor Castor”. Os quatro episódios já estão disponíveis no Globoplay. Esta é a terceira de quatro reportagens do ge sobre o bicheiro. A última irá ao ar no sábado.

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A relação do contraventor com a Justiça teve cenas curiosas. Em 1983, no julgamento pelas cenas de selvageria contra o árbitro Ricardo Durães numa partida do time feminino do Bangu, a bateria da Portela apareceu na porta do Fórum de Bangu. A escola era presidida por Carlinhos Maracanã, amigo e braço direito de Castor.

– O Carlinhos Maracanã disse: “Traz as mulatas, todo mundo, bateria, faixa da Portela…” – lembra Macula, ex-atacante do Bangu.

Castor de Andrade é recebido com festa pela bateria da Portela após julgamento — Foto: Reprodução / Globoplay

Castor e seus seguranças, que eram policiais militares e também foram julgados por invadirem o campo armados e correrem atrás do árbitro, foram inocentados das acusações. Na saída, o bicheiro comemorou com flores e samba.

– Era uma situação em que o cara estava sendo processado por agressão e não sei o quê, e no final dá festa. No final está a Portela lá fora, todo mundo cantando, feliz. Parecia que todo mundo sabia qual seria o resultado – completa Macula.

Bicheiro por influência da avó

Criado em 1892 pelo Barão de Drummond, dono de um zoológico localizado no bairro de Vila Isabel, o jogo do bicho se popularizou no Rio de Janeiro na virada do século XIX para o XX. Avó de Castor de Andrade, Dona Eurides foi uma das precursoras da contravenção em Bangu, na Zona Oeste.

– Naquela época, para ajudar na manutenção da casa, ela escrevia jogo do bicho numa casinha modesta em Bangu – contou Castor em entrevista a Jô Soares. – Minha mãe trabalhava num laboratório farmacêutico, enquanto minha tia ajudava minha avó a escrever o joguinho de bicho. Meu pai, que era condutor de trem, casou com minha mãe. Ele tinha outros negócios, mas por influência da minha mãe passou a ter também ligação no jogo do bicho.

Castor de Andrade em entrevista a Jô Soares — Foto: Reprodução

O pai do bicheiro, Eusébio de Andrade, o Zizinho, passou a comandar as bancas na região. Mas ele gostava mesmo é de futebol. Não à toa, tornou-se presidente do Bangu Atlético Clube nos anos 60. O jornalista Aloy Jupiara explica que Castor nasceu veio ao mundo dentro desse contexto.

– Seu Zizinho, que amava futebol, geria o bicho para a mulher, mas não gostava tanto de fazer esse papel. Então o Castor nasce para ser o sucessor e comandar aquele bicho – conta Aloy.

Formado em Direito, Castor de Andrade usou seu poder e sua influência para formar uma extensa rede de contatos ao longo da vida. Entre seus amigos próximos, estavam, por exemplo, o então presidente da Fifa, João Havelange; o então diretor da TV Globo, Boni; e o cantor Agnaldo Timóteo.

– Poucos tiveram coragem de dizer isso, mas eu faço questão de dizer. Você nunca me deu dinheiro. Eu sempre pedi dinheiro a você. Muito obrigado, Castor! – diz Agnaldo ao documentário.

Castor de Andrade foi bicheiro por influência da avó, Dona Eurides — Foto: Reprodução / Globoplay

A série mostra cenas raras de uma reunião da alta cúpula dos bicheiros do Rio de Janeiro, com a presença de um então delegado de polícia, Elson Campello. No almoço, Castor se refere aos contraventores como companheiros e pede voto para Ademar Alves. “Quero dizer a vocês que Ademar é candidato a deputado estadual, e eu gostaria que meus amigos que aqui estão o apoiassem”, afirma.

Castor de Andrade chegou à Mocidade Independente de Padre Miguel no final dos anos 70 e logo assumiu o poder na escola. De acordo com o jornalista Aydano André Motta, o bicheiro criou a figura do patrono, que despeja dinheiro, mas oficialmente não ocupa o topo do organograma da escola. Naquele momento, Castor indicou para a presidência da Mocidade o ex-policial Osman Pereira Leite, apontado como um dos matadores do contraventor.

Em 1979, Castor e Osman conseguiram seu primeiro título no Carnaval – enquanto o bicheiro era vivo, a Mocidade também venceu o desfile em 1985, 1990, 1991 e 1996. Castor também teve papel fundamental na fundação da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), criada em reunião na casa do contraventor.

– O Castor enxergou que o carnaval tinha um potencial enorme de arrecadar dinheiro e dar poder para eles, bicheiros, que mandavam nas escolas – conta Aydano.

Castor de Andrade ao lado de passista em desfile da Mocidade — Foto: Reprodução / Globoplay

Foi especialmente na segunda meta da década de 80, com a desilusão do vice-campeonato brasileiro do Bangu e do fracasso no Campeonato Carioca de 86, que Castor passou a apostar todas as suas fichas midiáticas no carnaval. Em 1990, entre idas e vindas da prisão, o bicheiro deu a célebre entrevista ao retornar ao Sambódromo.

“Há dois anos eu não frequento a passarela do samba por motivos óbvios. Eu estive em cana nos dois últimos carnavais, de modo que não poderia estar aqui. Evidente que agora já estou com minha situação regularizada e posso vir à passarela”, disse Castor.

Três anos depois, mais um discurso que ficou na história. Antes do desfile da Mocidade e ainda com a Justiça em seu encalço, Castor pegou o microfone e gritou para todos que estavam na passarela e para os brasileiros que assistiam pela televisão.

– Alô, Mocidade! Aqui quem fala é Castor de Andrade. Eu queria dizer a vocês que eu tenho sofrido nos últimos meses injustiças diversas, calúnias, intrigas. Meus desafetos e meus inimigos sempre procurando me atingir. Mas, à luz da verdade, o Direito está sempre presente para ressarcir as injustiças que sofro. Como homem de verdade, eu envergo, mas não quebro. Que todos desfilem com amor, com raiva das injustiças, com raiva de tudo mais que tira o nosso valor. Vamos caminhar célebres para a vitória, Mocidade!

Desde a morte de Castor em 1997, a Mocidade só conseguiu ser campeã do Carnaval no Rio uma vez, em 2017, quando dividiu o título com a Portela.

Castor de Andrade foi preso pela primeira vez em 1968, logo depois da publicação do AI-5, durante a ditadura militar. Ele ficou junto com outros bicheiros em Ilha Grande por poucos meses, mas acabou solto após apenas quatro meses.

Castor de Andrade conversa com um policial — Foto: Reprodução / Globoplay

Entre as décadas de 70 e 80, a banca de Castor esteve relacionada a vários assassinatos na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Um deles foi de um rapaz chamado Pedro, como conta Aloy Jupiara.

– A mulher dele (Pedro) também foi atingida pelos tiros dos matadores, mas sobreviveu. E o que eles queriam? Saber a localização de um amigo dele chamado Joinha, que era acusado de estar roubando pontos de bicho do Castor. No hospital, ela disse à polícia que as pessoas que atiraram foram Osman (Pereira Leite) e outro policial a mando de Castor.

Em 1973, houve outro caso até hoje não esclarecido: o do assassinato de Vicente de Paula da Silva, apontado como funcionário do bicheiro. Segundo as investigações da época, num momento de briga, ele chamou Castor de ladrão. Dias depois, seu corpo apareceu jogado na estrada Rio-Magé com a mão esquerda decepada. “Castor não era de perdoar as pessoas”, afirma Jupiara.

O contraventor foi preso diversas vezes entre 1987 e 1988, dessa vez por envolvimento também com contrabando de peças de videopôquer. Mas sempre conseguia a liberação – ele foi o primeiro no país a receber do Tribunal Federal de Recursos o direito de prisão domiciliar. E, mesmo na cadeia, tocava o dia a dia do Bangu e da Mocidade.

Do seu bolso, Castor pagou a reforma da Polinter, unidade em que ficou preso, e comprou novos carros para a polícia. Em sua cela especial, recebia visitas regulares dos jogadores do Bangu antes das partidas e acertava contratações.

Já em 1993, 14 banqueiros do jogo do bicho foram condenados à prisão por envolvimento com a contravenção pela primeira vez. A juíza Denise Frossard condenou a cúpula por formação de quadrilha armada. Foram presos:

  • Castor de Andrade
  • Anísio Abraão David
  • Aílton Guimarães
  • Raul Capitão
  • Carlinhos
  • Waldemiro Paes Garcia
  • Antonio Petrus
  • Jose Petrus
  • José Scafura
  • Haroldo Saens Peña
  • Luizinho Drummond
  • Emil Pinheiro
  • Waldemir Garcia
  • Paulinho Andrade (filho de Castor)

– Ele tinha a certeza da impunidade – comenta a juíza Denise Frossard, antes de completar:

– Ele tinha a certeza de que a Justiça não tinha instrumentos para puni-lo. Eles nunca preveem, o crime organizado nunca prevê o ponto final. E ele tomba.

Prisão no Salão do Automóvel

Após a condenação, Castor pagou de seu bolso a reforma da Polinter, unidade em que ficou preso, e comprou novos carros para a polícia. Em sua cela, recebia visitas regulares. Ainda em 1993, no mês de setembro, o bicheiro conseguiu um habeas corpus e deixou a prisão.

O tamanho do poder do contraventor voltou a ficar claro em março de 1994, quando o Ministério Público e a polícia chegaram à casa que servia de fortaleza para os negócios do bicheiro em Bangu. No local, encontraram livros com anotações das propinas pagas a policiais, políticos e advogados.

– Era uma coisa assustadora. Ele fica surpreso e pergunta: “Que polícia é essa, que não me avisou?”. Por que ele pergunta isso? Porque ele tinha a polícia na mão – diz Aloy Jupiara.

Veja trechos da série documental “Doutor Castor”

Em outubro de 1994, quando novamente estava foragido, Castor de Andrade, disfarçado, decidiu visitar o Salão do Automóvel, em São Paulo. Foi reconhecido por dois cariocas, que chamaram a polícia, e o contraventor acabou preso e transferido para o Rio de Janeiro.

– Eu o entrevistei no avião de São Paulo para o Rio. Ele contou que tinha fugido e automóvel era a paixão dele. Ele estava muito abatido, claramente com a sensação de que perdeu. Era muito arrogante para aceitar ser preso – relata Aydano André Motta.

Em agosto de 1996, o Superior Tribunal de Justiça concedeu prisão domiciliar a Castor, por motivo de saúde. Novamente, o bicheiro ignorou uma decisão judicial e deixou a casa com frequência. Em uma dessas saídas, em 11 de abril de 1997, o contraventor sofreu um infarto na casa de um amigo, onde jogava baralho, e morreu.

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