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Minha despedida – 04/01/2021 – Pablo Ortellado

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Com esta coluna encerro minha colaboração com a Folha.

Tentei aproveitar o espaço para comentar a agenda política nacional de duas perspectivas diferentes: como observador de esquerda independente e como estudioso da polarização política e das mídias sociais.

Como investigador que acompanha a literatura acadêmica, aproveitei o espaço para divulgar estudos que poderiam interessar a um público mais amplo, como o livro de Paolo Gerbaudo (“The mask and the flag”) sobre os movimentos sociais dos anos 2011-2013, o livro de Farris e Benkler (“Network propaganda”) sobre a segmentação do público leitor nas mídias sociais ou a etnografia de Arlie Hoschschild (“Strangers in their own land”) sobre a nova direita americana.

A investigação que coordeno na USP com Marcio Moretto, observando o comportamento nas mídias sociais e medindo a opinião do público em manifestações de rua, permitiu constatar (com perplexidade) o apoio ativo à reforma da Previdência, a desconexão da esquerda de certas posições populares e os impactos do bolsonarismo na expansão da Covid.

Como comentarista político, busquei exercitar a independência dissociando meus juízos políticos da minha identidade de esquerda.

A polarização política tem produzido uma espécie de hipertrofia das identidades sociais políticas como ser “de esquerda”, “feminista”, “patriota” ou “conservador”. Essas identidades passaram a ser ardorosamente partilhadas por um público mais amplo, muito além dos círculos ativistas, gerando uma dinâmica relacional destrutiva que é pouco apoiada em divergências substantivas.

Por esse motivo, busquei conscientemente me afastar das minhas próprias identidades políticas que eram fruto de uma longa trajetória de envolvimento com os movimentos sociais autônomos e a contracultura.

Em vez de estimular o ardor esquerdista, produzindo indignação, de um lado, e coesão com o grupo, de outro, busquei discutir as questões políticas de maneira independente, sendo bastante crítico com a esquerda parlamentar quando me pareceu necessário.

Num contexto de polarização, nossa responsabilidade política principal é a de criticar o próprio campo, já que o adversário jamais nos dará ouvidos. Isso me levou a polêmicas no jornal sobre o fascismo, argumentos fiscais e o stalinismo.

Gostaria de sublinhar que a Folha me proporcionou a mais completa liberdade editorial, mesmo quando exerci um contraponto às posições do jornal, defendendo a expansão do gasto social e uma maior regulação do Estado.

Agradeço ao jornal e aos seus leitores por esses três anos de reflexão.


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