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Proposta do projeto é incentivar que as mulheres sejam empreendedoras

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Rosimeire de Oliveira Florentino, 56 anos, passou mais da metade da vida na prisão, “entre idas e vindas foram 30 anos”, relembra. O motivo que a levou para trás das grades não importa mais, assim como as lembranças daquela época. “Agora é só daqui para frente”, diz. Ainda em condicional, Rosimeire concluiu a formatura da primeira turma do curso “Confeitaria Mais que Doce” e ficou emocionada de servir a mãe e o pai com os doces que preparou. “O engraçado é que minha mãe sempre trabalhou na cozinha e eu nunca fui atrás, agora eu gostei muito. Fiz minhas primeiras trufas, que aprendi aqui e vendi. Ganhei um dinheiro”, conta, orgulhosa.

O curso “Confeitaria Mais que Doce” é uma iniciativa do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, em parceria com o Senac, Fecomércio MS e Ministério Público do Trabalho. Além das mulheres que estão cumprindo pena, o curso foi aberto a outros públicos, como as vítimas de violência doméstica.

Durante a cerimônia de formatura, as alunas puderam levar familiares, declamar poemas e prestar homenagens. “Minha mãe, meu padrasto e minha filha vieram a minha formatura. Eles que me apoiaram esse tempo todo”, explica uma Rosimeire orgulhosa. Ao ver a alegria nos olhos da filha, Josima Alves de Oliveira, 77 anos, não resistiu às lágrimas. “É um grande prazer ver ela assim, nós lutamos tanto por ela, tentamos tanto ajudar, tivemos muitos problemas. Eu trabalhei a vida toda como cozinheira e agora não consigo mais emprego por causa da idade. Então, é legal ver ela traçando esse caminho na cozinha também”, acredita Josima.

Ao todo sete mulheres em situação de cárcere participaram do curso e concluíram com honras, sendo três em condicional, 2 em semi-aberto e 2 que utilizam tornolezeira. “Eu amei o curso, eu já trabalho como auxiliar de cozinha, então tudo isso foi um conhecimento a mais”, explica Rosa de Fátima Oliveira do Prado. Usando a tornolezeira após cumprir pena por tráfico, Rosa garante que recomeçou. “No início pode ser difícil voltar a trabalhar, as pessoas podem ficar com medo, mas se você conversar certinho, dá certo”, explica.

Recomeço

“Não vou mais lavar os pratos, nem vou limpar a poeira dos móveis. Sinto muito. Comecei a ler”. Com os versos do poema “Não vou mais lavar os pratos”, que também é o nome do seu livro, a atriz e escritora, Cristiane Sobral falou sobre a importância de recomeçar para as estudantes.

Na cidade para participar de outro projeto social, a escritora fez questão de estar presente durante a entrega dos certificados. “Parabéns por ter a coragem de realizar esse curso e espero que vocês já estejam formando parcerias, duplas, trios e associações coletivas, outras etapas para tornar esse momento parte do recomeço da vida de vocês”, ressalta.

Para Letícia Aguayo, 36 anos, a confeitaria chegou em boa hora. Artesã antes e agora confeiteira de  biscoitos e bolos sem glúten, Léticia recebeu o convite pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, ,  após sofrer violência doméstica há dois anos. “Eu queria me separar e ele não aceitava. Sofri ameaças e perseguições. Foi quando eu conheci a delegacia. Eles me ligaram porque sabiam que eu já trabalhava na área e poderia me interessar pelo curso”, explica.

Para o futuro, Letícia espera abrir um café. “Nunca tinha feito curso nenhum, essa é a primeira vez. Espero abrir um café no futuro”, sonha.

 

*CorreiodoEstado